Bruno Melo, produtor de eventos do Grupo Notável

Caro Gestor | 10/02/2012
Bruno Melo,  produtor de eventos do Grupo Notável
Bruno Melo
Crédito: Divulgação

Entregar nada menos que a fórmula do sucesso – é esta a missão de Bruno Melo nesta entrevista. Ele desvenda também os segredos da indústria do entretenimento baiano e guia o gestor público em um dos seus maiores desafios: levar o êxito das grandes festas às comemorações do seu município.

Bruno trabalhou com as bandas Cheiro de Amor, Pinel, Araketu, Coruja com Ivete Sangalo e, hoje, faz parte do Grupo Notável (antiga Pequena Notável), uma referência de mais de 10 anos em elaboração de festividades e gerenciamento de carreiras artísticas. A empresa alavancou sucessos como o bloco Papa, Babado Novo, Alexandre Peixe, sem contar revelações como Jauperi e Aviões do Forró. 

 Mas isso não é tudo. No campo municipal, ele já gerenciou comemorações em Amargosa, Santo Antônio de Jesus, Jacobina, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Porto Seguro, Camaçari, Serrinha, Alagoinhas, Mata de São João e Jequié. Entre os eventos privados, estão o Forró do Piu-Piu, o Sauípe Fest e o Forró do Reino. Todos são um sucesso. Como ele consegue tudo isso?

 A seguir, a trajetória de quem vem dando mais cor e som à folia baiana – um talento que você vai conhecer um pouco mais neste bate-papo promovido pela Revista Caro Gestor. Reúna a plateia e aumente o volume. Com a palavra, o dono da festa.

 Qual o principal desafio enfrentado para a produção de eventos em pequenos municípios?

Não prejudicar o orçamento do município. Se você gastar muito, irão dizer que você está desperdiçando dinheiro. Se gasta pouco, estará fazendo um evento “mixuruca”. O que encarece as negociações é o descrédito de algumas prefeituras. Por exemplo, quando se vai realizar um negócio com uma prefeitura, você fica com medo, fica fazendo exigências maiores que o normal só para calçar os riscos: atrasos, burocracia, não cumprimento de contratos, tudo pode acontecer. Uma vez eu fiquei assustado quando determinado serviço que, para nós, custava R$ 300,00, para a Prefeitura de Salvador custou R$ 2.700,00. Alguns empresários têm medo de trabalhar com o poder público e encarecem os orçamentos. E ainda há os intermediários. Nós adotamos uma política: só trabalhamos direto com a prefeitura. Não trabalhamos com produtor para passar para a prefeitura, porque isso já nos causou muita confusão. Nós vendemos atrações nossas, as dos outros nós não vendemos, porque eu só posso garantir o que eu tenho. Dando algum problema, eu posso responder. Por exemplo, digamos que haja algum problema com o pagamento: a gente teria que arcar com isso! Dando problema entre a gente, eu resolvo aqui mesmo. Para diminuir os intermediários, basta procurar as pessoas certas para produzir o evento. No mercado, às vezes, existem quatro pessoas antes de você até chegar à prefeitura e contratar. Não é que seja um trabalho ilegal. Nós estamos vendendo contratação com pessoas, a prefeitura deve procurar os parceiros certos, que tenham ligação direta com a atração, porque, a pessoa compra com você e aí revende para outras pessoas e, depois disso, chega na prefeitura.

  Quanto um município costuma gastar na produção de um evento?

Tem algumas coisas que são diferentes de um caso para outro. O som no palco pode custar de 1 mil reais a 30 mil reais. Hoje, para você fazer um evento médio em praça pública, com atração de médio porte, você gasta entre 40 mil e 50 mil reais.

  Para o município, é melhor investir em uma atração de grande peso ou em várias de médio porte?

Depende da situação. Por exemplo, no São João, você tem quatro dias de festa e não pode contratar 10 atrações de peso, porque vai pesar tanto que vai afundar o orçamento municipal. Você contrata uma atração grande para um dia e várias atrações pequenas para os outros dias, porque uma atração de peso vai reunir muito mais pessoas. O artista é a pessoa que o cidadão quer ver, no São João você tem que fazer uma grade. Não adianta fazer loucura, contratar uma atração grande e não ter dinheiro para pagar. Até porque não existe preço para uma banda – existe ocasião. Há data nobre ou dia da semana, então depende muito se você contrata uma banda numa segunda-feira, que é um preço, ou na quarta, quinta ou sexta, que já é outro. No carnaval, a contratação é muito mais cara, no São João as bandas de forró também são, ou seja, é o mercado que rege o preço, o momento da banda também. Por exemplo, há quatro anos, a dupla Jorge e Mateus tocou no ensaio do Harém por 2 mil reais. Hoje em dia, uma apresentação deles custa 300 mil reais ou 400 mil reais. Não existe uma regra básica, o que existe é você procurar as pessoas certas, que vão prestar o serviço sem extorquir ninguém.

 Colocar duas atrações de peso no mesmo evento é um desperdício de verba? 

Sim. Eu acho que, numa festa de um dia, não tem necessidade de você colocar mais de uma atração de peso. Para uma praça pública, por exemplo, não há necessidade. Em festa fechada, de camisa ou bancada pela iniciativa privada, pode ser, mas em evento aberto ao público não precisa. No máximo, basta que você coloque uma banda menor para fazer a abertura e uma grande atração como principal. Não precisa inventar.

 Qual a sua opinião sobre as prefeituras que incluem atrações evangélicas em sua grade de eventos?

O gestor é eleito pelo povo. Se o povo pede, teoricamente, ele tem que atender. Ele está sendo inteligente: se a população é evangélica, porque não atender? É uma manifestação como qualquer outra e tem crescido muito. 

 O que é melhor para o município: eventos públicos ou privados?

Por exemplo, o São João de Amargosa não era conhecido antes da criação da festa do Piu-Piu, há 15 anos. Uma coisa puxou a outra. O gestor deve fazer sua parceria, não atrapalhar o horário da festa privada e vice-versa.  Temos uma parceria com a prefeitura de Amargosa, então a mesma atração que toca na festa privada durante a tarde, toca à noite, na pública. O ideal é ser parceiro da festa porque é péssimo você brigar com o poder público. Se ambos forem parceiros, tem como compor uma situação em que os dois ganhem. 

 A presença de festas particulares na cidade colaboram com a audiência das festas públicas ou cria uma concorrência entre elas?

Os dois exemplos que eu tenho são de perfeita parceria, que são os prefeitos de Amargosa e Santo Antônio de Jesus, que incentivam as festas, no sentido de dividir mídia. Inserimos a marca do São João da prefeitura na minha divulgação e colocamos a marca da nossa festa na divulgação deles. Contratamos a mesma atração para baratear os custos. Acho burrice o prefeito brigar com isso, é mais fácil acertar lado a lado o horário das atrações principais, negociar o que é melhor para os dois, brigar é sempre a pior opção. 

 Ao abrigar um evento privado, o município corre o risco de sofrer com a evasão de divisas, já que uma parte do dinheiro deixa de circular na cidade?

Na maioria dos eventos privados o público é de fora. Eles movimentam a cidade no São João, o turista faz questão das menores cidades. Quanto menor, melhor. A pessoa gasta o dinheiro no evento e gasta dinheiro na cidade. Em Amargosa, por exemplo, acho que menos de 5% dos residentes frequenta o Piu Piu. Acho que 99% são de fora, estão gastando na festa e na cidade. É muito mais vantajoso para o município. 

 A mesma população que costuma solicitar atrações de peso nas festas da cidade, também reclama do uso de verbas públicas para os cachês, que poderiam ser utilizadas para obras de infra-estrutura. Como equilibrar estas demandas?

No São João, a cidade ganha com aluguel de casas, com o embelezamento da cidade, com os vendedores de cerveja na festa, essas coisas. Acho difícil ter essa reclamação. Mas, por exemplo, no aniversário da cidade, a população reclama um pouco, então, depende do evento. Acho que no São João é muito mais fácil você justificar. Amargosa todo ano deve alugar umas 2 mil casas, sendo assim, 2 mil famílias recebem um dinheiro que não estava previsto no orçamento. Em Santo Antônio de Jesus, o comércio na cidade para para atender ao evento. Você não consegue andar na cidade, é o período que as lojas mais vendem, superando até o Natal e Dia das Mães. Há compra de móveis e um monte de coisas que você não espera, todos os setores participam do São João por isso.Hoje o foco é o público de Salvador. Você tem que investir num marketing direcionado, não simplesmente contratar atração, colocar outdoor na rua ou mídia na televisão. O que vai resolver é você fazer um trabalho específico, voltado para o público que se desejar alcançar, e se questionar: qual o meu público? Do que ele gosta? O que ele vai fazer lá? Qual a festa? Tem que identificar o que ele quer e focar nele é difícil, mas não é impossível. Dá para fazer um bom trabalho. Depende da distância de Salvador, da estrutura da cidade, mas dá. Você pode investir no São João ou em outras datas, depende do que você quer atingir. A micareta ficou mais cara que o São João, a estrutura, o espaço, tudo é bem maior e você tem que se preocupar com a cidade inteira. Então eu acho que o custo-benefício para a prefeitura ficou mais caro. O São João é mais barato, cultural, as pessoas do interior curtem mais o São João do que uma micareta. Tem a questão dos grupos saírem visitando outras casas, isso acontece muito no interior. É a situação de Jequié, a cidade por si só já sustenta o São João, eles não dependem da população de Salvador para a festa acontecer. Ainda assim o público de Salvador é o mais almejado para essas festas, só que depende da situação que você queira fazer. Culturalmente, o São João é muito forte no interior e isso tem que ser aproveitado e incentivado em todas as cidades. Mesmo assim, tem festa no interior o ano inteiro. Em Santo Antônio de Jesus, há uma que se chama Festa do Tio Zé, que começou como uma brincadeira e já está no terceiro ano. Acontece numa época em que não tem essa concorrência toda. Por exemplo: lá vamos nós nos organizar esse ano para realizar um fim de semana festivo na cidade. Eles estão há 2 anos sem realizar o lançamento da decoração de Natal, então, nesse ano, na semana da inauguração, acontece a Festa do Tio Zé e o lançamento da promoção de Natal da Associação Comercial. Num fim de semana, a cidade conta com vários pontos de atração e isso pode ser feito, ninguém dá nada a ninguém e cada um cuida do seu interesse. Todos nós ganhamos.

 Algumas empresas prestam serviço de gestão de eventos municipais. Elas fazem toda a produção e parcelam o pagamento. Esta é uma boa oportunidade para prefeituras de pequeno porte?

Eu procuro fugir disso porque não é uma coisa fácil. Eu gosto de ter o meu negócio, gerir o meu dinheiro, eu faço eventos bancando esses eventos, não gosto de depender dos outros. Eu posso pensar de uma forma e a prefeitura pensa de outra, causando um choque, eu não gosto desse modelo. A prefeitura aceita, vem o Ministério Público e bate, então eu não vou fazer um evento tenso, preocupado porque, às vezes, as pessoas não sabem nem o que estão falando, mas estão ali opinando no seu trabalho. Quem não é do meio não vai entender que uma banda, na sexta-feira do São João, custa 100 mil reais e, no sábado, custa 150 mil reais. Ele vai questionar porque, em uma cidade, foi feito por 100 mil reais e, em outra, por 150 mil reais. O mercado é assim, eu não quero me meter com as prefeituras nesse sentido. Só fazemos contrato direto com a prefeitura . Eu já fiz pagamento parcelado com prefeituras, mas com prefeitos que eu conheço e confio. Porque tem um monte de gente com dinheiro boiando aí no estado sem receber. Já vendi atração para Santo Antônio de Jesus parcelado e não tive problema nenhum em receber, foi tudo dentro dos conformes. Não digo que seja perigoso, mas, às vezes, você é questionado sobre algo no seu meio e às vezes é difícil pra quem não é do meio entender 

 Há uma forma mais recomendada de arrecadação de verba para festas? (patrocínio, FazCultura, etc.)

Hoje em dia, se você depender disso para fazer um evento, não faz.  Tem cidade que procura, mas é muito pouco. Hoje em dia, você não consegue realizar um evento com patrocínio, é quase impossível. No caso de prefeitura, se o prefeito bancar a parte dele, ele consegue algumas formas de você arrecadar, mas garantir o evento só com arrecadação, sem gastar verba, você não consegue. Existe o patrocínio público, tem o privado, vendas de espaço. Você pode colocar uma sobretaxa na venda de bebidas, mas geralmente só se consegue 30%, o restante tem que ser bancado pelo município. A festa privada é a mesma coisa: você consegue patrocínio, um ajuda, mas é a bilheteria que banca. Nós fizemos a festa lá com 500 mil reais, conseguimos arrecadar 150 mil reais e conseguimos o patrocínio da Schincariol, ou seja, perdemos 270 mil reais. E ainda têm a pessoas lá, que não sabem de nada, elogiando a festa! (risos) Por isso eu corro do poder público nesse tipo de operação. Não tenho interesse em trabalhar com esse tipo de coisa. O mercado de produtores se queimou e daí você já chega mal visto. Às vezes, você vai bem intencionado e acaba sendo mal interpretado, além de que prefeituras têm vários interesses e aí começa uma situação em que você começa a ter um monte de gente contra você.

 Qual a sua recomendação profissional para o gestor que deseja otimizar as festividades do seu município?

Procure o parceiro certo em todos os sentidos: fornecedor, produtor, porque isso pode decidir se seu evento vai ser bom ou ruim, se vai ser bem ou mal feito, se você vai gastar a verba certa. É importante você não querer dar um passo maior que a perna, por exemplo. Uma gestão dura quatro anos, então, se o gestor pagar a todos (os fornecedores), já vai ter crédito para poder dar uma respirada maior nos próximos eventos, adquirir parcelamento, pagar com calma. Preparar um evento é um trabalho de equipe. Se for feito com responsabilidade, todo mundo sai ganhando. Sempre. 

 

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Autor(a): Mariana Miranda

Graduada em Publicidade e Propaganda pela UCSal e em Jornalismo pela F2J, possui mestrado em Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Tem experiência em gestão de conteúdo e fotografia. Hoje, colabora como redatora na Revista Caro Gestor e na Agência Fácil. Mais Informações em www.marianamiranda.com.

E-mail: mariana@carogestor.com.br
Twitter: @falamarimiranda

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