Santo Amaro da contaminação

Há 60 anos, quando uma poderosa mineradora francesa decidiu se instalar nas mediações do Recôncavo da Bahia, cidadãos e gestores apostaram no desenvolvimento da região. De fato, a empresa foi sinônimo de prosperidade durante três décadas e gerou centenas de empregos. Hoje, todas as referências à Companhia Brasileira de Chumbo (Cobrac) estão diretamente associadas à degradação ambiental, acúmulo de lixo e envenenamento. 

Ao todo, foram 490 mil toneladas de dejetos contaminados por chumbo e outros metais perigosos, como cádmio e mercúrio. O chumbo é causador do saturnismo, doença que afina braços, provoca dores, causa impotência sexual nos homens, além de aborto nas mulheres ou malformação de fetos. Desativada em 1993, a fábrica deixou um histórico de poluição e doença sem nenhuma punição. Hoje, dos 58 mil habitantes do município, 1,6 mil já acionaram a Justiça por intoxicação. Os processos ainda estão tramitando.
 
Um erro do passado
Quando procuramos a real causa para a tragédia ecológica, as opiniões se dividem. Em geral, as responsabilidades recaem, primeiramente, sobre a própria Cobrac. Em seguida, sobre o grupo político baiano que, na oportunidade, autorizou a instalação da empresa. Acusações recaem também contra o Governo francês, que ignorou as denúncias de contaminação, e, por fim, contra as próprias crenças da época - afinal, naquele período da história, chaminés e esgotos abertos ainda eram sinônimo de desenvolvimento urbano.
 
“Naquele tempo, não se conhecia os males que o chumbo podia causar. Portanto, a presença da Cobrac em Santo Amaro foi importante, na década de 40. Somente nos anos 70 é que o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Ceped), o primeiro órgão ambiental da Bahia e segundo do Brasil, identificou o problema da contaminação por chumbo na área da fábrica, nos arredores e no rio Subaé”, explica Irundi Sampaio Edelweiss, presidente do Conselho de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB). 
 
Sobre os danos à população, o jornalista Antonio Jorge Moura, estudioso do tema, defende que “o Brasil, através do Ministério das Relações Exteriores, impulsionado pelo Governo da Bahia, deveria empreender, junto aos tribunais internacionais, uma ação ambiental reparadora quanto aos prejuízos que a Companhia Brasileira de Chumbo (Cobrac) causou à cidade de Santo Amaro e à região de Boquira, na Bahia. Deveria haver uma ação internacional contra o Governo da França que tratasse sobre a mineração de chumbo que ocorreu na região”. Já para Edelweiss, o esforço seria tardio.  “A empresa encerrou a produção e o seu proprietário voltou para a França, não vejo como realizar uma ação internacional. Não conheço os caminhos para fazer isso, mas acho importantíssimo resgatar a qualidade ambiental daquela região e do rio”, opina.
 
Segundo o arquiteto Pablo Maurutto, a responsabilidade também foi da sociedade. “É uma lástima como nossas cidades enxergam os rios e os transformam em depósitos de dejetos. O caso da Cobrac é apenas um sintoma”, explica o coordenador do plano Purificar o Subaé, que está em tramitação e pode representar uma importante interferência urbana nos centros tradicionais da região do Recôncavo. “Existe muita polêmica em torno dessa questão. Alguns especialistas acham que é melhor não mexer. Afirmam que, como se trata de metal pesado, repousado em um solo argiloso, deixá-lo estável é o melhor a fazer. O problema é que a cidade precisa avançar. Recentemente, a simples substituição do gramado do estádio municipal gerou um grande risco porque havia escória no solo”, alerta. “Sou a favor de obras de reurbanização na cidade que tenham nos seus programas a remoção de uma camada de terra contaminada, que deve ser devidamente encapsulada e confinada. O paisagismo de toda a cidade, a partir de agora, também deve ter um direcionamento para a recuperação ambiental. Existem plantas que conseguem absorver metais pesados, como a orelha-de-elefante. Além disso, a recuperação da vegetação ciliar é importante pra evitar o assoreamento dessa terra com resíduos de escória”, afirma Maurutto, que defende uma recuperação ambiental capitaneada pelo poder público. 
 
Santo Amaro hoje
Em maio de 2011, os senadores Walter Pinheiro (PT-BA) e Paulo Paim entregaram para a presidenta Dilma Rousseff um dossiê sobre a contaminação por chumbo no Recôncavo. Desde então, o assunto foi deixado aos cuidados do secretário-geral da presidência, Gilberto Carvalho. O documento trazia informações detalhadas sobre a tragédia ambiental que afeta a cidade e estudos que indicam a necessidade imediata de destinar cerca de R$ 300 milhões para as ações de descontaminação da região, atendimento em saúde, indenizações e aposentadorias especiais, entre outras.
 
Para Maurutto, a situação é reversível. “Acredito na reestruturação ambiental, sim. A natureza tem uma resistência incrível e, se for possível dar condições pra a recuperação, ela vai se reestabelecer. O rio Subaé é um patrimônio de Santo Amaro. A descontaminação deve ser apenas um passo dentro de uma série de ações e projetos que precisam ser perseguidos pelo poder público”, acredita. Uma crença reiterada por Edelweiss, que descarta a possibilidade de um incidente semelhante nos dias de hoje. “O procedimento atual e as leis existentes impedem a repetição de fatos como o da Cobrac. A regulamentação está mais rígida. Sem dúvida, atualmente, todas as explorações de minérios na Bahia são cercadas de cuidados ambientais. Casos como esse são erros do passado e que não mais ocorrem. Hoje, o mundo é outro”, assegura.
 
Da França à terra de D. Canô
Por  Antonio Jorge Moura * 
 
Pouco se sabe sobre a história que levou Santo Amaro à situação de agora. Tudo começou há mais de 60 anos. O chumbo extraído pelos franceses é originário de uma mina que, hoje, está fechada. Essa mina foi descoberta durante a Segunda Guerra, num esforço dos Aliados para derrotar o fascismo, na década de 40. Depois, ela foi explorada pela Cobrac. O fato é que o minério foi enviado para a Europa e exportado como lastro de navio - aquilo que os marinheiros usam como peso morto para equilibrar o barco descarregado. Ou seja, houve pirataria, o minério foi exportado às escondidas. Depois da Segunda Guerra, os franceses acharam que o minério não era mais necessário, então instalaram em Santo Amaro uma usina de processamento do chumbo à beira de um rio - como era prática no século passado. Aqueles detritos escoando pela água eram sinônimos de progresso. Foram 300 toneladas de chumbo, cádmio e zinco desaguando na Baía de Todos os Santos. E o Subaé já recebia detritos de matadouros, residências, todo tipo de lixo. 
 
O Governo francês, sobretudo da família Rotchild, tradicional desde o tempo da monarquia, através da sua empresa Penaroya, não só explorou a mina de Boqueira, como também implantou a Cobrac em Santo Amaro. O passivo ambiental espalhado pela empresa não está só no Subaé, mas no centro urbano da cidade de D. Canô. Está no piso, no calçamento, nas plantações. A limalha rica em cobre, zinco e chumbo era entregue para que se fizesse o calçamento das ruas e quintais. É só colocar uma sonda que se vê, é só estudar a poeira das ruas. Ainda se incluem neste passivo ambiental os funcionários da Cobrac e suas famílias. Eles viviam em contato com essa fonte de poluição, muitos deles sofreram com algo que eles chamaram de doença ocupacional, mais conhecida como saturnismo, que é um mal causado pela ingestão de chumbo. Essa doença já existia desde a Idade Média, devido ao uso do cobre. Desde lá, o sistema nervoso central das pessoas já era afetado por metais pesados. As pessoas não sabiam o risco que estavam correndo.
 
Além disso, o mais grave é que as chaminés tinham “manga de filtro”. Trata-se de um pano felpudo que retinha as partículas microscópicas de poluição. Quando esse pano ficava muito concentrado e era necessário trocar, ele era descartado nas ruas. Desinformadas, as famílias recolhiam o tecido, lavavam e faziam toalhas de mesa, pois era pano bom, quando o tecido popular era chita. Houve contaminação em massa.
 
Bem, essa é a dívida da França com Santo Amaro. É de uma dimensão fantástica. Os órgãos internacionais precisam tomar consciência do que aconteceu, é necessário que se obrigue a França a fazer uma descontaminação de Santo Amaro. O fato é que a mineração pode acontecer, mas não a qualquer preço. A Europa recuperou os rios dela -, mas e os nossos? A despoluição deve ser muito custosa, milhões de dólares. Há o rio Subaé, há a Baía de Todos os Santos, há a cidade em si. Se o Governo Brasileiro não quer arcar com isso, então deve acionar os tribunais internacionais e obrigar a França a despoluir a região. Além de que, é claro, isso tudo deve servir de lição para o presente e para o futuro. Não se pode condenar a mineração como um todo, que existe desde sempre. Os sinos das igrejas medievais não seriam possíveis sem a mineração. É por ela que chegamos ao cabo de silício, que alavancou a informática. O problema é fazer a mineração a qualquer custo. 
 
Fechar empresas e aterrar o passado não resolve, é necessário despoluir e fazer com que os industriais e grandes investidores de produção mineral contemporâneos não façam o mesmo. Eles devem ser obrigados a investir pesadamente na proteção ambiental. Fazer mineração com ecologia é caro. Mas não podemos admitir que seja diferente. Quer explorar um minério do solo? Tudo bem. Mas vai ter que pagar o preço da reposição ambiental. E isso não pode ser opção, tem que ser lei - ou a crosta da Terra vai virar um queijo suíço.
 
* Antonio Jorge Moura é jornalista e recebeu menção honrosa no Prêmio Orixás de Reportagem, em 1976, pela matéria “Poluição”, publicada na Tribuna da Bahia, em que trata da contaminação da cidade de Santo Amaro.
 
MAIS INFORMAÇÕES
Antonio Jorge Moura  - (71) 3248-5489 - antoniojmoura@gmail.com
Irundi Sampaio Edelweiss -  (71) 3343-1200 - www.fieb.org.br
Pablo Maurutto - maurutto@gmail.com 
 
 
 

 

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