PAULO FÁBIO DANTAS NETO - Fake News nas eleições: Como a dinâmica das redes sociais pode interferir na disputa

Quinta-feira, 4 de Outubro de 2018
Fonte: Redação Caro Gestor
Crédito da Foto: You Tube

O ambiente eleitoral de 2018 configurou-se instável. Em diferentes cenários, parlamentares e gestores públicos demonstraram estar receosos com a crise política, com as alterações na legislação e, especialmente, com as novas regras para a condução dos mandatos. Somado a isso, tivemos um importante elemento influenciador na corrida eleitoral deste ano: a internet. Nesta conversa com o Professor Doutor Paulo Fábio Dantas Neto, cientista político e docente na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia (UFBa), vamos falar um pouco sobre este novo elemento dentro da política:


GC - Como o senhor vê a presença das redes sociais no cenário das eleições de 2018? 

PF - Pelo que posso entender do que dizem especialistas, elas jogarão num papel mais importante do que já jogaram em eleições recentes. O que não torna irrelevantes ou necessariamente declinantes os outros meios de comunicação. E se o uso de redes sociais - e da internet de um modo geral - será mais extenso e intenso, é notório, também que, para uso eleitoral, as redes tornaram-se mais acessíveis a pessoas comuns, amadoras, por assim dizer, que se sintam engajadas no assunto por diversos motivos e não apenas a quem as usa profissionalmente, ou estrategicamente, em campanhas eleitorais. 


CG - Foi necessário que a Justiça eleitoral fizesse pedidos de mudança aos gestores de redes sociais para evitar a propagação de notícias falsas. Como o senhor interpreta este fenômeno? Acredita que este monitoramento será eficaz?

PF - Acredito que o uso mais difuso das redes torna o monitoramento mais complexo e mais difíceis a previsão e o controle. Mas se de um lado isso aumenta riscos de manipulação, por outro, aumentam também chances de relativa neutralização de seus efeitos, face a uma maior pluralidade de perspectivas que ali devem estar presentes, além da perspectiva estratégica dos atores políticos e seus apoiadores. Deve-se apostar, sim, no monitoramento institucional dos gestores mas também em possibilidades de autocontrole dos usuários pois não seria sensato supor que o uso de redes sociais seja intrinsecamente manipulador, na medida em que são várias as motivações que levam pessoas até elas. São também espaços para prática de cidadania de novo tipo. Então qual a medida da eficácia? Penso que não pode ser a pretensão de que as redes veiculem apenas “fatos, ou “verdades”. A matéria da política é intrinsecamente controversa e o oxigênio da atividade é o confronto de opiniões, não a busca da verdade, como no caso da ciência. Nem sempre a Justiça Eleitoral entende bem esse ponto. Tende a adotar viés normativo exacerbado que por vezes a faz exagerar em prescrições. Boas intenções reguladoras não são tudo, há que se ter também alguma aposta em virtudes da interação, que essas redes propiciam, em escala inédita. Por isso, para que não se faça da mentira uma arma e da verdade factual um grilhão, é bom termos em mente que a situação a ser almejada é o justo equilíbrio entre liberdade de movimentos (e de interpretações) e sua regulação. A exemplo, aliás, do que é saudável que ocorra em todas as atividades e dimensões envolvidas no funcionamento de uma democracia.


GC - Fala-se que, na campanha eleitoral dos EUA, cerca de 40% das notícias publicadas nas redes sociais eram falsas, que houve o uso de robôs (bots) na propagação de ideias partidárias e que estas interferências foram de importância decisiva para o resultado das urnas: a eleição de Trump. Como você analisa este cenário?

PF - O que posso dizer, genericamente, é que não me parece razoável atribuir-se a um fator isolado uma importância decisiva num processo tão complexo como o da eleição presidencial num imenso país com tamanha influência no mundo. Resisto a crer que haja protagonismo dessa ordem em qualquer dos muitos fatores que se cruzam num evento assim. E penso que isso vale também para uma eleição no Brasil, especialmente se ela se trava, como agora, num ambiente altamente crítico em que são muitos e desencontrados os interesses, as lógicas, as narrativas e também as mídias que buscam protagonismo. O dissenso torna provável que a falta de protagonismo dê o tom do processo. O que é arriscado, mas nem sempre ruim. Cacofonia pode complicar, até angustiar, mas tende a causar menos dano do que conspirações bem orquestradas. 


GC - Com a proximidade das eleições de outubro, que conselhos você daria ao eleitor que faz uso da internet e pretende fazer uma escolha segura?

PF - Que não use apenas a internet, mas também leia, ouça e converse fora dela. Creio que a melhor forma de se situar bem na discussão eleitoral na internet (para não só acompanhar como também participar) é comparando o que ali é postado com o que está sendo veiculado em outros espaços. Por exemplo, muitas pessoas ficam sabendo nas redes sociais o que foi dito por candidatos em debates pela TV. Ainda que a informação acessada seja veraz, ela será sempre também uma interpretação. Por isso, quem viu apenas a repercussão pelas redes terá, no máximo, a possibilidade de seguir uma ou outra dessas interpretações. Mas quem além disso assistiu ao debate ao vivo tem a chance também de formar uma interpretação própria ou, pelo menos, ir “treinando”. Desse modo poderá mais facilmente desconsiderar opiniões superficiais, argumentações precárias e também distinguir fakenews no “arriar das malas”.  Repito: monitoramento institucional é necessário, mas o remédio mais eficaz e duradouro é a imunização cultural adquirida por quem se torna menos ingênuo à medida em que usa esses meios. Tem o perigo da pessoas se tornar cética, até cínica. Mas democracia é também correr perigo.  E reconhecê-los para driblá-los. 


PAULO FÁBIO DANTAS NETO

Nascido em Salvador, 63 anos, cientista político, doutorado pelo IUPERJ (2004). Professor Associado da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia e pesquisador do Centro de Estudos sobre Humanidades (CRH/UFBA). Tem trajetória de pesquisa sobre elites e partidos políticos e ênfase em política baiana. No momento dedica-se à área temática do Pensamento Político Brasileiro. Foi vereador em Salvador (1983-1988), deputado estadual (1989) e secretário de educação de Salvador (1994). É autor de “Tradição, Autocracia e Carisma: a política de Antônio Carlos Magalhães na modernização da Bahia”, publicado pela EdUFMG. 


Sobre Mariana Miranda

Graduada em Publicidade e Propaganda pela UCSal e em Jornalismo pela F2J, possui mestrado em Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Tem experiência em gestão de conteúdo e fotografia. Hoje, colabora como Jornalista na Revista Caro Gestor. 
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