PORTUGAL – Tráfico de Armas, droga e prostituição abrem guerra na noite de lisboa

A guerra pelo controlo do tráfico de armas e de droga e por redes de prostituição está a atingir pontos nunca vistos na noite de Lisboa, confirmaram fontes policiais ao Nascer do SOL. Os dois homens mortos, um a tiro e outro a golpes de faca, e os seis feridos graves no último fim de semana na capital – um no Cais do Sodré e outro no Bairro Alto – serão vítimas dessa guerra entre grupos organizados que disputam o controlo dos negócios da noite lisboeta na zona da Baixa…

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Brasil quer atrair mais investimentos privados, diz presidente na ONU

Foto - Alan Santos

O presidente Jair Bolsonaro disse, hoje (21), ao abrir a sessão de debates da 76ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), que o Brasil está trabalhando na atração de investimentos da iniciativa privada e que possui “tudo o que investidor procura: um grande mercado consumidor, excelentes ativos, tradição de respeito a contratos e confiança no nosso governo”. O presidente Bolsonaro disse que o país está promovendo o modal ferroviário e outras ações dentro do seu programa de parceria de investimentos, e que já foram firmados mais de US$ 6 bilhões…

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EUA: polícia cerca homem com possíveis explosivos perto do Capitólio

Agentes da lei cercaram um homem com possíveis explosivos sentado em um veículo perto do Capitólio dos Estados Unidos nesta quinta-feira (19), enquanto edifícios próximos eram esvaziados e veículos de emergência corriam ao local. “Esta é uma investigação de ameaça de bomba ativa”, informou a polícia do Capitólio (USCP) no Twitter.

O homem estava em um veículo diante da Biblioteca do Congresso, que em frente o Capitólio, disse uma fonte das forças da lei. Segundo esta fonte, a presença de explosivos não havia sido confirmada.

Entretanto, no Congresso, pessoas foram notificadas de que o ocupante do veículo disse que tinha uma bomba e que as autoridades estavam delineando suas reações com a ameaça em mente, disse um funcionário à Reuters.

Vários prédios próximos foram esvaziados, inclusive a Suprema Corte. Pessoas do prédio de escritórios de Madison foram instruídas a se proteger no próprio local de trabalho. Uma estação de metrô próxima foi fechada.

A polícia interditou ruas que cercam o complexo do Capitólio enquanto caminhões dos bombeiros e de resgate seguiam para a área. O Escritório de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos disse estar enviando um técnico de bombas para auxiliar a polícia, e o FBI, a agência federal de investigação dos Estados Unidos, também foi acionado.

A área normalmente movimentada da Colina do Capitólio estava relativamente deserta, e a Câmara dos Deputados e o Senado não estavam em sessão.

“A USCP está reagindo a um veículo suspeito perto da Biblioteca do Congresso”, disse a corporação no Twitter. “Mantenham distância desta área.”

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Agência Brasil explica: talibãs retomam poder no Afeganistão

Depois de 20 anos de ocupação no Afeganistão, os Estados Unidos estão deixando o país. Mas antes mesmo da operação de retirada ser concluída, os talibãs já assumiram o controle da capital, Cabul. A velocidade dos acontecimentos provocou uma avalanche de informações no noticiário internacional. Mas por que os Estados Unidos decidiram colocar fim à incursão militar? E quem são os talibãs? Por que parte da população busca deixar o país conforme revelam as imagens que rodaram o mundo, mostrando um aeroporto caótico?

O Talibã se tornou conhecido como um grupo religioso fundamentalista na primeira metade da década de 1990 e foi organizado por rebeldes que haviam recebido apoio dos Estados Unidos e do Paquistão para combater a presença soviética no Afeganistão, que durou de 1979 a 1989, em meio à Guerra Fria. A chegada ao poder se consolida em 1996, com a tomada de Cabul.

Uma vez no controle do governo, o Talibã promoveu execuções de adversários e aplicou sua interpretação da Sharia, a lei islâmica. Um violento sistema judicial foi implantado: pessoas acusadas de adultério podiam ser condenadas à morte e suspeitos de roubo sofriam punições físicas e até mesmo mutilações. O uso de barba se tornou obrigatório para os homens e as mulheres não poderiam ser vistas publicamente desacompanhadas dos maridos. Além disso, elas precisavam vestir a burca, cobrindo todo o corpo. Televisão, música e cinema foram proibidos e as meninas não podiam frequentar a escola.

Ataque às torres gêmeas

A ocupação dos EUA foi uma reação aos ataques às duas torres gêmeas do World Trade Center, arranha-céus situados em Nova York. Dois aviões atingiram os edifícios em 11 de setembro de 2001, levando-os ao chão e causando quase 3 mil mortes. Os EUA acusaram o Talibã de dar abrigo ao grupo terrorista Al Qaeda, que assumiu a autoria do atentado. Em outubro de 2001, tiveram início as operações militares no Afeganistão. As ruas de Cabul foram tomadas em dois meses. Em 2004, eleições foram realizadas no país e, em 2011, as forças norte-americanas anunciaram a morte de Osama Bin Laden, líder da Al Qaeda.

Volta dos talibãs

A volta ao poder dos talibãs foi consolidada no domingo (15): o presidente afegão Ashraf Ghani deixou o país e o controle do palácio presidencial foi assumido pelos rebeldes. Tudo ocorreu sem que houvesse resistências.

Diante do cenário, os EUA precisaram acelerar a conclusão do processo de saída do país, em curso desde o ano passado: uma megaoperação para tirar às pressas diplomatas e cidadãos norte-americanos foi montada pelas tropas norte-americanas, que ainda controlam o aeroporto. No entanto, imagens que ganharam repercussão internacional mostraram um caos no local, com milhares de civis desesperados para deixar o país se aglomerando junto aos aviões.

De acordo com Fernando Luz Brancoli, pesquisador e professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), durante os 20 anos de ocupação, ocorreu uma ampliação das liberdades civis e alguns setores econômicos se desenvolveram, mas o período também foi marcado por diversas denúncias de corrupção. “Houve grupos políticos que se beneficiaram desse momento, que ganharam prestígio, ganharam dinheiro. Em uma escala menor, tivemos mulheres entrando no mercado de trabalho, ocupando algumas funções governamentais, frequentando as escolas. Mas fica no ar até que ponto essas transformações serão mantidas”, disse.

Nos primeiros discursos, os talibãs têm buscado se apresentar mais moderados. Nessa terça-feira (17), um canal de televisão estatal do Afeganistão levou ao ar o pronunciamento de um porta-voz do grupo. Enamullah Samangani garantiu uma anistia geral para todos e disse que a população deveria regressar à normalidade com confiança. Zabihullah Mujahid, um outro representante do grupo, concedeu uma coletiva à imprensa onde reafirmou que não haverá vingança com quem trabalhou para o antigo governo ou para forças estrangeiras. Ele também disse que as mulheres poderão trabalhar e devem participar da estrutura de governo.

Apesar dos acenos, pesquisadores manifestam ceticismo com uma moderação. “Fico parcialmente desconfiado. A forma de governar do Talibã está muito pautada em práticas de violência e controle. Então, considerando seu histórico, até que ponto eles conseguem pensar a organização do país de outra maneira? Vamos ter que esperar pra ver, mas acho que essa moderação é meramente discursiva”, diz Brancoli.

O cientista político João Paulo Nicolini Gabriel, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), chama a atenção para o uso das redes sociais pelo Talibã, onde divulgam indícios de corrupção. “O que eles querem mostrar nesse primeiro momento é que o governo de Ghani não representava a população”.

O comportamento da população retrata o receio popular. As vias públicas estão mais vazias e parte do comércio mantém as portas fechadas. A vida das mulheres já sofre alguns impactos: muitas estão com medo de sair de suas casas. Em público, homens e mulheres voltaram a usar vestimentas afegãs tradicionais. Não se sabe se centros de estética em Cabul voltarão a funcionar. Cartazes publicitários com mulheres estão sendo apagados das ruas, como mostra uma imagem que se tornou viral nas redes sociais.

Insurgentes, Kabul, Muro , apagam foto de mulheres
Insurgentes, Kabul, Muro , apagam foto de mulheres

Insurgentes apagam foto de mulheres em Cabul – Reuters/KYODO/Direitos Reservados

Mas apesar das imagens com milhares de pessoas reunidas no aeroporto em busca de uma oportunidade de sair do país, Brancoli avalia que a população não possui uma visão homogênea e não há uma repulsa generalizada contra os talibãs. Segundo ele, os moradores das áreas rurais são indiferentes ou apoiam o Talibã e a elite urbana não é tão numerosa.

“Tem que lembrar que o Afeganistão é um país majoritariamente rural. E nas áreas rurais, a população olhava para o governo central de forma muito desconfiada. Muitos consideravam um governo corrupto que não atendia aos seus interesses. Uma das explicações para o avanço tão rápido do Talibã seria, em parte, esse apoio da população local. Não houve grandes resistências nas partes periféricas. E quando chegou em Cabul, onde se esperava uma resistência um pouco maior, o próprio exército parecia que já tinha desistido de lutar e não tinha interesse no conflito. O presidente fugiu”, pontua.

O governo de Ghani, apoiado pelos Estados Unidos, nunca teve 100% de domínio sobre o território do país e os talibãs sempre controlaram algumas áreas. De acordo com João Paulo, o cenário atual revela a incapacidade da política norte-americana de alcançar certos objetivos, o que fez com que a ocupação tenha se arrastado por mais tempo do que se esperava. “Reformularam até o sistema eleitoral do país e não conseguiram garantir uma estabilidade. Ghani tinha dificuldades de manter popularidade. E justamente por isso havia tantos soldados norte-americanos lá”.

Processo de saída

Segundo João Paulo, o processo de retirada das tropas foi influenciado em alguma medida pela opinião pública nos Estados Unidos. “Os gastos militares começaram a ser mais criticados depois da crise econômica de 2008. Há um longo debate, inclusive na academia, sobre a necessidade da intervenção no Afeganistão, o que também pressionava por um plano de evacuação”.

A retirada gradual das tropas norte-americanas foi pactuada no ano passado em um acordo bilateral firmado entre o então presidente Donald Trump e o Talibã. O processo deveria ser concluído até maio desse ano. O grupo afegão se comprometeu a não dar abrigo a terroristas da Al Qaeda e do Estado Islâmico.

Eleito, o presidente Joe Biden assumiu a sucessão de Trump e manteve o processo em andamento, mas alterou o prazo: prometeu encerrar a ocupação até setembro e posteriormente antecipou para agosto. À medida que as forças dos EUA deixavam o país, ocorreu um rápido avanço das forças talibãs sobre as mais diversas cidades.

A velocidade com que os talibãs retomaram o poder gera repercussões políticas nos EUA com grupos de oposição criticando a condução da saída do Afeganistão pelo governo de Joe Biden. No domingo (15), em um pronunciamento público, o secretário de Estado, Antony Blinken, recusou comparações com o fim da Guerra do Vietnã em 1975, quando rodaram o mundo cenas da cidade de Saigon em que se viam diplomatas desesperados para deixar a embaixada dos Estados Unidos diante da aproximação dos vietcongues. “Isto não é Saigon. Fomos ao Afeganistão há 20 anos com uma missão em mente: lidar com as pessoas que nos atacaram em 11 de setembro, e essa missão foi bem-sucedida”, disse Blinken.

Para Brancoli, a rápida recuperação do poder pelos talibãs coloca em cheque os bilhões de dólares investidos pelos Estados Unidos no treinamento do exército afegão. “Os armamentos deixados pelos Estados Unidos vão cair nas mãos dos talibãs. Tem até uma curiosidade: eles tinham lá os Super Tucanos, que são aeronaves construídas no Brasil junto com os Estados Unidos. Agora o Talibã tem acesso a eles. Não sei se vão saber pilotar”, observa.

Nessa segunda-feira (16), o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden culpou a relutância do Exército afegão em lutar contra o Talibã. Ele avaliou que nunca existiria um bom momento para retirar as tropas do país.  “A verdade é: isso aconteceu mais rápido do que esperávamos. Então, o que aconteceu? Os líderes políticos do Afeganistão desistiram e fugiram do país. Os militares afegãos desistiram, às vezes sem tentar lutar”, acrescentou.

O que irá acontecer daqui em diante dependerá também dos desdobramentos de geopolítica, isto é, de como os talibãs irão dialogar com o restante do mundo. “Estamos vendo algumas mudanças importantes. O grupo que foi derrubado pelos Estados Unidos há 20 anos está agora virando governo e inclusive sendo reconhecido como governo por alguns países, como é o caso da China. Durante muito tempo, nas discussões sobre a geopolítica da região, se debatia o papel dos Estados Unidos, da Rússia, da Inglaterra. Pela primeira vez, precisamos entender qual será o papel chinês e qual vai ser a política chinesa para a região. Já está claro que os chineses vão negociar com os talibãs”, observa Brancoli.

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Número de mortos em terremoto no Haiti sobe para quase 2 mil

O número de mortes após o grande terremoto que atingiu a região sudoeste do Haiti no último fim de semana subiu para 1.941 nessa terça-feira (17). A busca por sobreviventes foi retomada após a passagem da tempestade tropical Grace, com os haitianos atingidos pela tragédia clamando por alimentos, abrigos e ajuda médica.

Os hospitais enfrentam enormes dificuldades para atender a todos os feridos, que chegaram a 9.915, com muitas pessoas ainda desaparecidas ou presas sob os escombros, informou o Serviço de Proteção Civil. 

“Não havia médicos suficientes, e agora ela está morta”, disse Lanette Nuel, sentada apaticamente ao lado do corpo de sua filha do lado de fora do principal hospital de Les Cayes, uma das cidades mais castigadas tanto pelo tremor quanto pela chuva e pelos fortes ventos da tempestade.

A mulher morta, de 26 anos, que era também mãe de duas crianças, foi atingida por escombros durante o terremoto de magnitude 7.2. “Nós chegamos ontem à tarde, ela morreu hoje de manhã. Eu não posso fazer nada”, disse a mãe.

O terremoto de sábado (14) provocou o desabamento de dezenas de milhares de prédios no país mais pobre das Américas, que ainda se recuperava de outro tremor de 11 anos atrás, que matou mais de 200 mil pessoas.

As iniciativas de resgate e auxílio estavam complicadas por causa do difícil acesso e do estado das estradas que ligam a capital Cabul à região sul, devido ao controle de pontos importantes por gangues. Inundações e deslizamentos na passagem da tempestade tropical Grace, que seguiu para a Jamaica, dificultaram ainda mais os esforços.

* Reportagem adicional de Herbert Villarraga e Robenson Sanon

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ONU teme grave crise migratória com retomada do poder pelo Talibã

O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), agência vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), aponta o risco de uma grande crise humanitária de deslocamento forçado após os talibãs retomarem o poder no Afeganistão. Milhares de famílias já vinham deixando suas casas desde o início do ano.

“As recentes ondas de violência e insegurança já deslocaram cerca de 550 mil pessoas apenas neste ano, sendo 390 mil desde maio. Na ausência de paz e desenvolvimento, mais pessoas serão forçadas a deixar suas casas e buscar proteção em outros locais do país ou nos países vizinhos”, disse Luiz Fernando Godinho, oficial de comunicação do Acnur.

O Afeganistão já é, atualmente, a terceira maior origem de pessoas refugiadas no mundo, atrás apenas da Síria e da Venezuela. De acordo com a última edição do relatório anual Tendências Globais do Acnur, publicado no final de 2020, há 2,6 milhões de pessoas que saíram do país em busca proteção internacional.

Há também um enorme fluxo interno. Três milhões de famílias foram obrigadas a deixar suas casas: 65% das pessoas que precisaram se mudar para outras cidades são crianças e jovens.

Retirada dos Estados Unidos

Os novos deslocamentos registrados neste ano coincidem com o processo de retirada das tropas dos Estados Unidos, que ocupavam militarmente o país desde 2001, como resposta aos ataques terroristas aos edifícios do World Trade Center, em Nova Iorque. A autoria da ação foi assumida pelo grupo Al Qaeda, que recebia abrigo no Afeganistão, então governado pelos talibãs.

A decisão de encerrar a ocupação foi tomada no ano passado: o então presidente Donald Trump fixou o prazo até maio deste ano. Eleito para a sucessão presidencial, Joe Biden assumiu o cargo e alterou o cronograma, que seria concluído em setembro, mas foi antecipado para agosto.

À medida que as forças norte-americanas deixavam o país, ocorreu um rápido avanço dos talibãs sobre as mais diversas cidades. A volta ao poder se consolidou no último domingo (15): o presidente afegão Ashraf Ghani deixou o país e o controle do palácio presidencial foi assumido pelos rebeldes.

Diante do cenário, os EUA montaram uma operação para acelerar a conclusão do processo de saída de seus cidadãos do país. As tropas norte-americanas ainda controlam o aeroporto e tentam organizar o embarque de diplomatas e cidadãos dos EUA. Ontem (16), imagens que ganharam repercussão internacional mostraram um cenário de caos no local, com milhares de civis desesperados para deixar o país, correndo e tentando se agarrar aos aviões.

Parte da população está apavorada devido ao histórico dos talibãs, que governaram o país entre 1996 e 2001. Na ocasião, o grupo extremista promoveu execuções de adversários e aplicou sua interpretação da Sharia, a lei islâmica. Um violento sistema judicial foi implantado: pessoas acusadas de adultério podiam ser condenadas à morte e suspeitos de roubo sofriam punições físicas e até mesmo mutilações.

O uso de barba se tornou obrigatório para os homens e as mulheres não poderiam ser vistas publicamente desacompanhadas dos maridos. Além disso, elas precisavam vestir a burca, cobrindo todo o corpo. Televisão, música e cinema foram proibidos e as meninas não podiam frequentar a escola. Embora venha apresentando um discurso moderado, há receio de que o Talibã volte a exercer o poder com violência.

Apoio

Diante da possibilidade de uma crise migratória, o Acnur desenvolve ações específicas para o Afeganistão e já há uma campanha de doação aberta. Em nota, a agência pede que seja garantido ao trabalho humanitário livre acesso aos civis e comunidades que estejam em situação de vulnerabilidade no país.

O texto também cobra a responsabilidade das nações, para que permitam que as pessoas que fogem da guerra possam ter acesso aos seus territórios e encontrem proteção. “Embora os campos de refugiados possam ser usados como uma medida temporária no caso de grandes massas de refugiados, o Acnur defende a busca por alternativas mais sustentáveis no longo prazo no que diz respeito à recepção e à acolhida”,  registra a nota. O Acnur também recomenda cautela com processos de deportação de afegãos nesse momento.

A agência se mantém exclusivamente com a ajuda financeira de pessoas físicas, governos e empresas privadas. “Diante da complexidade de crises humanitárias, as doações são fundamentais para ampliar o alcance e o impacto dos programas do Acnur na vida de milhares de crianças, homens e mulheres”, diz Godinho.

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Haiti: tempestade diminui esperança de encontrar sobreviventes

Chuvas pesadas atingiram o Haiti na noite dessa segunda-feira (16), complicando os esforços de resgate e encharcando milhares de pessoas que foram desabrigadas pelo terremoto devastador do último sábado (14). A esperança de encontrar sobreviventes nos destroços dos prédios que desabaram diminuiu. O forte tremor, de magnitude 7,2, matou pelo menos 1.419 pessoas.

A depressão tropical Grace chegou às regiões do sudoeste haitiano mais assoladas pelo tremor, atingindo cidades arrasadas com ventos fortes e chuvas torrenciais e causando inundações. 

O terremoto derrubou dezenas de milhares de edifícios do país mais pobre das Américas, que ainda se recupera de um grande sismo de 11 anos atrás, que matou mais de 200 mil pessoas.

O desastre mais recente veio pouco mais de um mês depois de o Haiti mergulhar em uma crise política devido ao assassinato do presidente Jovenel Moise, no dia 7 de julho.

Vários hospitais grandes foram gravemente danificados, dificultando a assistência humanitária, assim como os pontos centrais de muitas comunidades, como igrejas e escolas.

Ontem, autoridades haitianas disseram que 1.419 mortes foram confirmadas, e cerca de 6.900 pessoas ficaram feridas.

Enquanto a esperança de encontrar um número significativo de sobreviventes entre os escombros diminuía, a tempestade prejudicou os agentes de resgate na cidade litorânea de Les Cayes, que está localizada cerca de 150 quilômetros a oeste da capital Porto Príncipe e a que mais sofreu com o tremor.

Prevê-se que a tempestade deixará até 38 centímetros de chuva em partes do Haiti, criando o risco de marés, de acordo com o Centro Nacional de Furações dos Estados Unidos (NHC).

Agentes de resgate de todo o Haiti estavam escavando os destroços ao lado dos moradores, na noite de ontem, para tentar resgatar corpos, mas poucos manifestavam esperança de encontrar alguém vivo. Uma nuvem de poeira e corpos em decomposição eram vistos.

“Viemos de todas as partes para ajudar: do norte, de Porto Príncipe, de todos os lugares”, disse Maria Fleurant, do Corpo de Bombeiros do norte haitiano.

Enquanto as chuvas intensas chegavam, agentes de emergência retiraram um travesseiro manchado de sangue dos escombros, seguido pelo corpo de um menino de três anos que parece ter morrido dormindo durante o tremor.

Pouco depois, os agentes suspenderam os trabalhos devido à intensidade da chuva.

* Reportagem adicional de Herbert Villarraga e Robenson Sanon

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Cientistas veem China com papel central e não creem em Talibã moderado

Cientistas que estudam a geopolítica no Oriente Médio consideram que é preciso olhar com cautela para as promessas de moderação do Talibã. Também questionam os resultados obtidos pelos Estados Unidos (EUA) durante a ocupação que durou 20 anos e avaliam que os desdobramentos na região vão depender de como a China irá se movimentar diante do retorno do grupo extremista ao poder no Afeganistão.

“Estamos vendo algumas mudanças importantes. O grupo que foi derrubado pelos Estados Unidos há 20 anos está agora virando governo e, inclusive, sendo reconhecido por alguns países, como é o caso da China. Durante muito tempo, nas discussões sobre a geopolítica da região, se debatia o papel dos Estados Unidos, da Rússia, da Inglaterra. Pela primeira vez, precisamos entender qual será o papel chinês e qual vai ser a política chinesa para a região. Já está claro que os chineses vão negociar com os talibãs”, observa Fernando Luz Brancoli, pesquisador e professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Mais cedo, a China acenou para o novo governo afegão. A porta-voz da diplomacia chinesa, Hua Chunying, disse que o país respeita o direito do povo afegão de decidir seu próprio destino e deseja seguir mantendo relações amistosas e de cooperação com o Afeganistão. Ela ainda afirmou que a embaixada, situada na capital Cabul, manteria seu funcionamento normal.

Para o cientista político João Paulo Nicolini Gabriel, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mudanças na região irão muito além da relação entre Estados Unidos e Afeganistão. “Devido à sua localização, é um país que ocupa espaço extremamente importante no cenário asiático. A Ásia Central sempre foi muito importante. Agora precisamos olhar como os Estados Unidos, a China e Rússia vão lidar com o Afeganistão. São países que desempenham papel central. Mas um ponto pouco falado envolve os papéis do Paquistão e da Índia, que são essenciais, porque têm grande influência na região. Pode haver fricções e realinhamentos diplomáticos”, diz.

O Paquistão foi um dos poucos países que mantiveram relações diplomáticas com o Afeganistão, durante o período governado pelo Talibã na década de 90. Segundo João Paulo, as declarações do primeiro-ministro Imran Khan dão indícios de que o governo paquistanês está disposto a aceitar a volta do grupo extremista.

De outro lado, a situação impõe novas preocupações à Índia. O governo liderado por Narendra Modi, que costuma explorar politicamente crises com o Paquistão, poderá ficar em posição menos confortável com a saída das tropas norte-americanas do Afeganistão.

A volta dos talibãs ao poder foi consolidada no último domingo (15): o presidente afegão Ashraf Ghani deixou o país e o controle do palácio presidencial foi assumido pelos rebeldes. Tudo ocorreu sem que houvesse resistências.

Diante do cenário, os EUA precisaram acelerar a conclusão do processo de saída do país, em curso desde o ano passado: uma megaoperação para tirar às pressas diplomatas e cidadãos americanos foi montada pelas tropas norte-americanas, que ainda controlam o aeroporto. No entanto, imagens que ganharam repercussão internacional mostraram um caos no local, com milhares de civis desesperados para deixar o país se aglomerando junto aos aviões.

Para Brancoli, a rápida recuperação do poder pelos talibãs coloca em cheque os bilhões de dólares investidos pelos Estados Unidos no treinamento do Exército afegão. “Os armamentos deixados pelos Estados Unidos vão cair nas mãos dos talibãs. Tem até uma curiosidade: eles tinham lá os Super Tucanos, que são aeronaves construídas no Brasil junto com os Estados Unidos. Agora o Talibã tem acesso a eles. Não sei se vão saber pilotar”, observa.

Apesar das imagens com milhares de pessoas reunidas no aeroporto em busca de uma oportunidade de sair do país, o pesquisador avalia que a população não tem uma visão homogênea e não há uma repulsa generalizada contra os talibãs. Segundo ele, os moradores das áreas rurais são indiferentes ou apoiam o Talibã, e a elite urbana não é tão numerosa.

“É preciso lembrar que o Afeganistão é um país majoritariamente rural. E nas áreas rurais a população olhava para o governo central de forma muito desconfiada. Muitos consideravam um governo corrupto que não atendia aos seus interesses. Uma das explicações para o avanço tão rápido do Talibã seria, em parte, esse apoio da população local. Não houve grandes resistências nas partes periféricas. E quando chegou em Cabul, onde se esperava uma resistência um pouco maior, o próprio Exército parecia que já tinha desistido de lutar e não tinha interesse no conflito. O presidente fugiu”, acrescenta.

João Paulo observa que o governo afegão apoiado pelos EUA nunca teve 100% de domínio sobre o território do país, e os talibãs sempre controlaram algumas áreas. Ele avalia que, sobretudo nas grandes cidades, uma parte da população está apavorada. Há ainda imigrantes de diversos países buscando deixar o país. “Se pegarmos os últimos comunicados internacionais, da Índia por exemplo, vemos que há grande preocupação de como retirar seus cidadãos do Afeganistão. Outros países também tentam proteger suas populações”.

De acordo com o cientista político, o cenário revela a incapacidade da política norte-americana de alcançar certos objetivos, o que fez com que a ocupação tenha se arrastado por mais tempo do que se esperava. “Reformularam até o sistema eleitoral do país e não conseguiram garantir uma estabilidade. Ghani tinha dificuldade de manter popularidade. E justamente por isso havia tantos soldados norte-americanos lá”. 

Legado

Tornando-se conhecido como grupo religioso fundamentalista na primeira metade dos anos 90, o Talibã foi organizado por rebeldes que haviam recebido apoio dos Estados Unidos e do Paquistão para combater a presença soviética no Afeganistão, que durou de 1979 a 1989, em meio à Guerra Fria. A chegada ao poder se consolida em 1996, com a tomada de Cabul.

Uma vez no controle do governo, o Talibã promoveu execuções de adversários e aplicou sua interpretação da Sharia, a lei islâmica. Um violento sistema judicial foi implantado: pessoas acusadas de adultério podiam ser condenadas à morte e suspeitos de roubo sofriam punições físicas. O uso de barba se tornou obrigatório para os homens e as mulheres não poderiam transitar e ser vistas publicamente sem a burca, que deveria cobrir todo o corpo. Televisão, música e cinema foram proibidos e as meninas não podiam frequentar a escola.

A ocupação dos EUA foi uma reação aos ataques às duas torres gêmeas do World Trade Center, arranha-céus situados em Nova York. Dois aviões atingiram os edifícios em 11 de setembro de 2001, derrubando-os e causando quase 3 mil mortes. Os EUA acusaram o Talibã de dar abrigo ao grupo terrorista Al Qaeda, que assumiu a autoria do atentado, e invadiu o Afeganistão em outubro de 2001. As ruas de Cabul foram tomadas em dois meses. Em 2004, eleições foram realizadas no país e, em 2011, as forças norte-americanas anunciaram a morte de Osama Bin Laden, líder da Al Qaeda.

Segundo Brancoli, durante os 20 anos de ocupação, ocorreu uma ampliação das liberdades civis e desenvolvimento econômico em alguns setores, mas também diversas denúncias de corrupção. “Houve grupos políticos que se beneficiaram desse momento, que ganharam prestígio, ganharam dinheiro. Em uma escala menor, tivemos mulheres entrando no mercado de trabalho, ocupando algumas funções governamentais, frequentando as escolas. Mas fica no ar até que ponto essas transformações serão mantidas”.

Esse legado, na visão do pesquisador não está garantido. “Eles estão dizendo que vão moderar e ser menos brutais do que foram na década de 90. Fico parcialmente desconfiado. A forma de governar do Talibã está muito pautada em práticas de violência e controle. Então, considerando seu histórico, até que ponto eles conseguem pensar a organização do país de outra maneira? Vamos ter que esperar pra ver, mas acho que essa moderação é meramente discursiva”.

João Paulo chama a atenção para o uso das redes sociais pelo Talibã, onde divulgam indícios de corrupção. “O que eles querem mostrar neste primeiro momento é que o governo de Ghani não representava a população”.

Retirada

A retirada gradual das tropas norte-americanas foi pactuada no ano passado em um acordo bilateral firmado entre o então presidente Donald Trump e o Talibã. O processo deveria ser concluído até maio deste ano. O grupo afegão se comprometeu a não dar abrigo a terroristas da Al Qaeda e do Estado Islâmico.

Eleito, o presidente Joe Biden assumiu a sucessão de Trump e manteve o processo em andamento, mas alterou o prazo: prometeu encerrar a ocupação até setembro, posteriormente antecipado para agosto. À medida que as forças dos EUA deixavam o país, ocorreu um rápido avanço das forças talibãs sobre as mais diversas cidades.

Para João Paulo, o processo de retirada das tropas foi influenciado também pela opinião pública nos Estados Unidos. “Os gastos militares nos Estados Unidos começaram a ser mais criticados depois da crise econômica de 2008. Há um longo debate, inclusive na academia, sobre a necessidade da intervenção no Afeganistão, que também pressionava por um plano de evacuação”.

A velocidade com que os talibãs retomaram o poder gera repercussões políticas nos EUA, com grupos de oposicionistas criticando a condução da saída do Afeganistão pelo governo de Joe Bidens. Ontem (15), em pronunciamento, o secretário de Estado, Antony Blinken, recusou comparações com o fim da Guerra do Vietnã em 1975, quando rodaram o mundo cenas da cidade de Saigon, em que se viam diplomatas desesperados para deixar a Embaixada dos Estados Unidos diante da aproximação dos vietcongues. “Isto não é Saigon. Fomos ao Afeganistão há 20 anos com uma missão em mente: lidar com as pessoas que nos atacaram em 11 de setembro, e essa missão foi bem-sucedida”, disse Blinken.

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